Com a autorização do próprio e a devida vénia, publicamos a seguir um artigo de António Tadeia, interessante como reflexão de um Jornalista com muita experiência.
O MONOPÓLIO DAS EMOÇÕES
O meu cardiologista, o Dr. Santiago Nunes, é brasileiro e adepto do Internacional de Porto Alegre. Na última vez que estive com ele, perguntou-me uma coisa que há bocado me voltou a ressaltar na mente, quando trocava mensagens no meu servidor de Discord com um subscritor que me anunciou que ia desistir do serviço Premium do meu Substack. Dizia-me esse subscritor que era do futebol da “emoção, expectativa e desilusão” e que eu tentava reduzir o jogo a “movimentações e espaços virtuais, rabiscos, setas e zonas de ocupação ou projeção”. Declaro-me culpado, pois então. É isso que faço, na maior parte das vezes.
Mas o que o Dr. Santiago me perguntou aqui há um par de meses foi, recorrendo ao conhecimento que tem da realidade brasileira, por que razão eu não passava a ser antes comentador de um clube e, em vez de tentar ser um analista frio e objetivo, não me transformava noutra figura, porventura melhor para o negócio nestes tempos em que mandam as redes sociais e as emoções extremas a que elas dão boleia. Contou-me até que havia no YouTube um ex-jornalista que era agora comentador “do Internacional” e que a cada vez que o clube perdia (o que ultimamente tem acontecido muito) fazia uma pequena fortuna em lives. Porque toda a gente queria juntar-se àquele muro das lamentações para insultar o perna de pau que chutou para fora, o técnico que fez a escalação errada ou o cartola que escolheu mal o primeiro e o segundo.
O futuro está aí, eu sei. Infelizmente.
Pois bem, há uma série de razões que me levam a não mudar agora, aos 55 anos. Uma é que já tenho 55 anos. “Mas o Roncero”, respondem-me. “E o Edu Aguirre, que até é amigo do Cristiano Ronaldo”, acrescentam. “E o Gary Neville e o Jamie Carragher”, juntam ainda, para que não se ache que a coisa é exclusivo ibérico ou latino. Não importa. Quando vejo cantores pimba de 70 e tal anos vestidos com blusões de cores berrantes que usariam aos 18 naqueles degradantes espetáculos televisivos de domingo à tarde, eles não me parecem mais novos. Parecem só velhos armados em novos. Ora eu não só não sei fazer aquilo como acho que há outras formas de abrir os braços à modernidade (novas plataformas de divulgação do jornalismo, por exemplo). E sei que para fazer aquilo todos temos os nossos amigos mais fanáticos, deste ou daquele clube, com quem gozamos ou a quem aturamos consoante os resultados viram para um lado ou para o outro.
Depois, além de saber que esse seria um caminho sem volta, acho que essa não é, não pode ser, a missão do jornalismo. Numa altura em que já temos os bots do Twitter e do Facebook, em que os clubes usam as redes sociais e os próprios canais de televisão para travestirem desinformação em informação exclusiva, em que os treinadores e os jogadores cada vez mais só falam a canais próprios, para gáudio dos tais adeptos – que não entendem que de caminho perderam a capacidade para serem informados… –, o jornalismo deve temperar excessos, não alimentar-se deles. Não quero, como me acusou aquele subscritor prestes a abandonar, “expurgar o futebol dos seus adeptos mais fervorosos”, mas a minha missão também não é comportar-me como eles.
Claro que, como em todas as áreas de negócio, há quem faça mais dinheiro seguindo por vias que a mim, à luz da ética e da deontologia da profissão, me parecem menos corretas. Incompatibilizam-se com uns, passam a ser venerados como heróis por outros, mas no fim do dia não acrescentaram nada a não ser irascibilidade ao espaço público. Ou, como disse o meu subscritor desencantado, “gritos e gargalhadas, insultos e abraços, choro e paixão”.
São coisas importantes? Sim, claro. Mas as emoções não é a minha missão fornecê-las. Tal como não é a minha missão defender o futebol, como às vezes alguns dirigentes entendem que os jornalistas têm o dever de fazer. Não tenho de o defender cegamente nem de o atacar sem razão. Comporto-me como me comporto porque a minha missão é sobretudo a de escrutinar o futebol, compreendê-lo para melhor o explicar.
Quando Roberto Carlos (não o defesa-esquerdo, o outro, o cantor) celebrava só saber que emoções ele tinha vivido, era ele que as tinha vivido, não lhas tinham contado nem vendido. Uma emoção não se explica. Vive-se. E para a viver não vos faço falta nenhuma. A minha missão, aquilo para que alguns de vós me pagam os cinco euros de subscrição mensal, é tirar esse eu mais excessivo da vossa relação com o futebol e com o vosso clube em alguns momentos – não em todos, que era o que faltava terem que racionalizar quando gritam golo ou se abraçam no estádio ou no bar a perfeitos estranhos com quem partilham a paixão por um emblema. Mas quem sabe se, uma hora depois, já refeitos, não posso ajudar-vos a entender o racional de uma decisão tomada em campo ou fora dele, a perceber porque foi golo.
Gera-se um pouco, entre os desencantados do meu Substack, a ideia de que ando nisto em busca de unanimidades, de reconhecimento da minha superior capacidade de entendimento do futebol. Não só não ando como tenho alguma saudade do tempo em que podia viver as minhas emoções desportivas de forma livre – e daí ter andado anos atrás dos jogos de rugby do meu filho, na formação. Não há nenhuma superioridade intelectual na frieza face à emoção. E quanto aos unanimismos, gosto que discordem de mim – e por isso criei o Futebol de Verdade, para isso existe o meu servidor de Discord, onde debato os temas convosco. Não gosto de insultos ou de insinuações não provadas, mas se me predisponho a debater convosco os temas é para me bater pelas minhas visões. Não é, seguramente, para que me dêem sempre razão. Isso não me acrescenta nada. O que me acrescenta, sim, é que subscrevam e tragam amigos para a comunidade.
Sinto-me um pouco, como disse ao Dr. Santiago, a vender congeladores a esquimós no início da Idade do Gelo. Sei que estes dias são complicados para quem tenta racionalizar e escrutinar, porque os adeptos têm a dopamina de graça, logo acharão que não têm razão para pagar só para que lhe digam que não estão a perceber bem o que está em causa. Mas é isso que vos prometo, porque não só é o que acho que sei fazer como é o que acho que deve ser feito. E enquanto houver gente desse lado e eu tiver condições de gastar oito horas do meu dia a fazê-lo, é o que farei.
Em 2026, como acontece a todos os seis meses, o meu Substack vai ter mais umas ligeiras alterações. No dia 1 de Janeiro revelarei tudo.
António Tadeia